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Onde a moda guarda seu racismo

Carol Delgado*

A próxima temporada do SPFW terá como tema as fusões que deram origem à miscigenação racial, símbolo maior da população brasileira. Bela e justa homenagem. Mas vamos pensar um pouquinho: alguém já parou para contar o número de modelos negros que participam dos principais eventos de moda do país? Eu já. Considerando Fashion Rio e São Paulo Fashion Week, em suas últimas 6 edições, os eventos costumam contar com uma média de 120 modelos participantes, destes, na edição com o maior número de participantes negros, apenas 13 tinham a pele escura. Sim, isto acontece no país de maior contingente negro fora do continente africano. Não, não é por falta de bons profissionais, conheço mais de uma dezena, que há anos lutam por oportunidade e reconhecimento. Sim, o negro drama descrito com indiscutível contundência pelos Racionais Mc´s também se reproduz no democrático e criativo campo da moda. Um campo onde os dominantes apresentam traços finos, cabelos lisos e loiros, e olhos claros. Um campo onde se reproduz a ode mundial à beleza européia. Alguém lembra do último negra ou negro alçado ao posto de "queridinho do mundo fashion" que sobreviveu a três estações? Certamente não. E se formos consultar o ranking nacional de preferências, é provável que não encontremos nenhum representante negro entre os eleitos. Por quê?

Na moda, como em todos os setores da cultura e da economia no país, se reproduz o mito de origem da sociedade brasileira, a democracia racial, que convive harmoniosamente com manifestações esporádicas da cultura popular. Porém, uma análise mais profunda do campo nos permite detectar o que Oracy Nogueira denominou, no século passado, em Itapetininga, interior de São Paulo, de preconceito de marca. Desmistificando as peculiaridades do racismo à brasileira, em comparação ao encontrado nos EUA, o sociólogo nos dá as dicas para entender o resultado no mínimo curioso de uma pesquisa onde 98% dos brasileiros se auto-declaram não-racistas, mas onde 99% admitem conhecer pelo menos uma pessoa racista. O preconceito de marca é aquele que leva à discriminação por conta da aparência física do indivíduo. Talvez com esse dado consigamos entender porque é tão difícil para o Brasil aceitar belezas diferentes do padrão europeu imposto durante o processo de colonização. O lema "black is beautiful", por enquanto, não passa de discurso politicamente correto, uma meia dúzia de tribos moderninhas usando roupas inspiradas no movimento hip hop e "se jogando" ao som do baile funk.

Que se prestem as homenagens, mais do que merecidas às peculiaridades na formação do povo brasileiro, mas também desejamos que se efetivem medidas concretas para que enfim, nossa diversidade racial possa desfilar nas passarelas, e estampar campanhas e editoriais de moda, não importa a estação do ano, nem o público ao qual se destina o veículo. Soluções? Sistema de cotas nas revistas e desfiles? Programas de conscientização desde a graduação? Bom, uma coisa é certa, está na hora da moda brasileira ser questionada: onde ela guarda o seu racismo?

*Carol Delgado, 26 anos, antropóloga, produtora / jornalista de moda e atuante na luta pelo fim do racismo no Brasil.

 

 
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