Gênero - "Mulheres Negras"
Matilde Ribeiro*
Em 25 de julho de 1992, o I Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas estabeleceu a data como marco internacional à luta e resistência das mulheres negras.
Naquela ocasião, lideranças sociais denunciaram a duplicidade de discriminação de gênero e racial/étnica, agregando ao Dia da Mulher Negra da América Latina e do Caribe um simbolismo de reverência às ancestrais oprimidas pelo sistema e de estímulo para continuidade da busca por igualdade de direitos.
Essa exaltação às mulheres negras está inserida no congraçamento de ações do feminismo negro de luta a todas as formas de exclusão e violência vivenciada por esse grupo.
São elas manifestas pela disparidade de remuneração e ascensão profissional, descaso de atendimento aos bens e serviços sociais, estigmas socioculturais, alto índice de violência, entre outros fatores expressos em todos os setores da vida humana - limitadores do exercício da cidadania e dignidade.
Quando retornamos nossa atenção ao passado, verificamos o impacto da liderança feminina negra para resistência ao escravismo, no culto aos valores africanos na presença ativa para libertação do povo negro.
Reconhecemos naquelas mulheres o precursionismo da orientação contemporânea de inserção no mercado de trabalho e detenção da própria vida, sobrepondo-se às interdições sexistas para limitação da liberdade de pensamento e manifestação.
Atualmente, nos deparamos com um grupo expressivo de mulheres negras chefiando famílias, superando as adversidades pela incidência da discriminação
de gênero e étnica.
Essas mulheres buscam novos horizontes - mesmo de forma mais reduzida em termos quantitativos - na vida política, científica e democrática, vencendo todos os entraves nitidamente existentes na sociedade brasileira, por mais que se queira escamotear.
A cada 25 de julho, reiteramos nosso empenho, conjuntamente com a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, de disseminar, dentro das políticas públicas do governo brasileiro, iniciativas que assegurem melhoria de condições para as mulheres negras através de ações pautadas na especificidade de gênero e raça, como as pontuadas nos planos nacionais de Políticas para as Mulheres e de Promoção da Igualdade Racial.
Nossa solidariedade se orienta pelo conhecimento de causa e, por assim ser, nosso compromisso fundamental é minimizar e desencadear um processo de reversão dessa opressão que atinge as mulheres, sobretudo as negras.
Nesse Dia da Mulher Negra da América Latina e do Caribe reconhecemos o tanto a ser construído e renovamos nossa energia para estabelecer as bases de inclusão social e valorização das negras como cidadãs brasileiras.
*Matilde Ribeiro, 45 anos, mestre em serviço social pela PUC-SP, é secretária especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República.
Fonte: SEPPIR (www.planalto.gov.br/seppir/) |